Equipamentos Utilizados na Liberação Miofascial: Uma Visão Prática e Atualizada

 


Por Enrico Gori Soares, Doutor em Ciências do Movimento Humano

A auto liberação miofascial (ALM) se tornou uma prática comum em academias, centros de treinamento funcional e clínicas de reabilitação. Diferentemente das técnicas manuais, a ALM pode ser realizada sem a necessidade de um terapeuta, utilizando equipamentos como rolos de espuma, bastões de massagem, medicine balls e até barras olímpicas (Cheatham et al., 2015; Curran et al., 2008).

Essa abordagem traz vantagens como menor custo, maior autonomia ao praticante e redução da sobrecarga de trabalho dos fisioterapeutas, permitindo que se concentrem em técnicas que exigem sua presença, como eletroterapia e ultrassom (Cheatham et al., 2015; Healey et al., 2014; MacDonald et al., 2014; Pearcey et al., 2015).

Além disso, estudos mostram que a ALM promove benefícios importantes:

  • Aumentos de flexibilidade (Peacock et al., 2015; Pearcey et al., 2015),

  • Manutenção do desempenho e da ativação mioelétrica (Bradbury-Squires et al., 2015; Grabow et al., 2018; Sullivan et al., 2013),

  • Redução da dor muscular de início tardio (DMIT) (Pearcey et al., 2015),

  • Ganhos de força, devido à exigência de sustentação do peso corporal durante os exercícios (Cheatham et al., 2015).

Equipamentos Mais Utilizados na ALM



Rolo de Espuma (Foam Roller)

É o equipamento mais popular e também o mais estudado na literatura (Cheatham et al., 2015; Healey et al., 2014; MacDonald et al., 2014; Pearcey et al., 2015; Bradbury-Squires et al., 2015).

Os rolos variam em:

  • Diâmetro, comprimento, densidade,

  • Superfície (lisa, rugosa ou com nódulos de “perfil alto”).

O praticante usa o próprio peso corporal sobre o rolo, massageando os músculos com movimentos controlados. Isso promove ativação muscular e instabilidade, como demonstrado por Kim et al. (2014), que observaram aumentos de 50 a 180% na atividade dos músculos abdominais ao realizar exercícios sobre o rolo, comparado ao chão.

Entretanto, quanto maior a necessidade de estabilização, maior a dificuldade para indivíduos com pouca força ou sobrepeso (Cheatham et al., 2015).

Pressão e Superfície

A pressão exercida varia com:

  • A rigidez do rolo: rolos rígidos promovem maior pressão e atuação mais profunda do que rolos macios (Aboodarda et al., 2015),

  • O tipo de superfície: rolos com nódulos de “perfil alto” simulam os dedos de um massagista e atingem tecidos mais profundos (Curran et al., 2008),

  • O número de pontos de contato: exercícios unilaterais geram pressões duas vezes maiores do que bilaterais.


Pressão máxima exercida na lateral da coxa com o rolo (a) rígido e (b) macio. KPa = Kilo Pascal. Adaptado de Curran et al., 2008. 

Aplicação de pressão no complexo miofascial com o rolo de perfil rugoso (A) e o rolo com nódulos de perfil alto.

Bastão de Massagem (Roller Massage)

Trata-se de uma haste rígida com esferas independentes que o praticante move com as mãos, controlando a pressão (Sullivan et al., 2013; Grabow et al., 2018; Bradbury-Squires et al., 2015). É portátil e promove efeitos similares aos rolos, segundo revisão sistemática (Cheatham et al., 2015).



Medicine Ball

Apesar de menos usada, oferece vantagens:

  • Superfície menor e mais rígida (aumenta a pressão),

  • Alta demanda de estabilização tridimensional,

  • Versatilidade: pode substituir o rolo em vários exercícios (Peacock et al., 2015).

Bolas de Tênis ou Lacrosse

Indicadas para áreas pequenas como:

  • Fáscia plantar, tríceps sural, peitoral e rotadores do ombro. A bola de lacrosse é mais rígida e pode substituir a de tênis à medida que o praticante evolui (Peacock et al., 2015).

Barras Olímpicas

Utilizadas de duas formas:

  1. Como substituto ao rolo (alta rigidez e pressão, com grande desconforto);

  2. Com adição de carga e ajuda de um parceiro para controle da pressão aplicada, como em estudos de Grabow et al. (2018), Bradbury-Squires et al. (2015) e Sullivan et al. (2013).




Considerações Finais

A escolha do equipamento ideal depende da área a ser trabalhada, da pressão desejada e da condição física do praticante. Dominar essas técnicas e saber orientar corretamente a ALM é fundamental para quem atua com prescrição de exercícios, reabilitação ou performance esportiva.


Referências

Aboodarda, S. J., Spence, A. J., & Button, D. C. (2015). Effect of rolling massage on range of motion and neuromuscular efficiency of the plantar flexors. Journal of Strength and Conditioning Research, 29(8), 2320–2325. https://doi.org/10.1519/JSC.0000000000000865

Bradbury-Squires, D. J., Noftall, J. C., Sullivan, K. M., Behm, D. G., Power, K. E., & Button, D. C. (2015). Roller-massager application to the quadriceps and knee-joint range of motion and neuromuscular efficiency during a lunge. Journal of Athletic Training, 50(2), 133–140. https://doi.org/10.4085/1062-6050-50.1.09

Cheatham, S. W., Kolber, M. J., Cain, M., & Lee, M. (2015). The effects of self-myofascial release using a foam roll or roller massager on joint range of motion, muscle recovery, and performance: A systematic review. International Journal of Sports Physical Therapy, 10(6), 827–838.

Curran, P. F., Fiore, R. D., & Crisco, J. J. (2008). A comparison of the pressure exerted on soft tissue by 2 myofascial rollers. Journal of Sport Rehabilitation, 17(4), 432–442. https://doi.org/10.1123/jsr.17.4.432

Grabow, L., Young, J. D., Alcock, L. R., Quigley, P. J., Byrne, J. M., & Behm, D. G. (2018). Foam rolling and roller massage acutely increase flexibility of the hamstrings without hampering muscle strength. Journal of Strength and Conditioning Research, 32(4), 1131–1136. https://doi.org/10.1519/JSC.0000000000002350

Healey, K. C., Hatfield, D. L., Blanpied, P., Dorfman, L. R., & Riebe, D. (2014). The effects of myofascial release with foam rolling on performance. Journal of Strength and Conditioning Research, 28(1), 61–68. https://doi.org/10.1519/JSC.0b013e3182956569

Kim, T. H., Kim, Y. L., & Bae, S. H. (2014). The effects of self-myofascial release on pain and functional status in patients with myofascial pain syndrome. Journal of Physical Therapy Science, 26(8), 1231–1234. https://doi.org/10.1589/jpts.26.1231

MacDonald, G. Z., Penney, M. D. H., Mullaley, M. E., Cuconato, A. L., Drake, C. D. J., Behm, D. G., & Button, D. C. (2014). An acute bout of self-myofascial release increases range of motion without a subsequent decrease in muscle activation or force. Journal of Strength and Conditioning Research, 28(1), 89–96. https://doi.org/10.1519/JSC.0b013e3182956569

Peacock, C. A., Krein, D. D., Silver, T. A., Sanders, G. J., & von Carlowitz, K. P. A. (2015). An acute bout of self-myofascial release in the form of foam rolling improves performance testing. International Journal of Exercise Science, 8(3), 257–265.

Pearcey, G. E. P., Bradbury-Squires, D. J., Kawamoto, J. E., Drinkwater, E. J., Behm, D. G., & Button, D. C. (2015). Foam rolling for delayed-onset muscle soreness and recovery of dynamic performance measures. Journal of Athletic Training, 50(1), 5–13. https://doi.org/10.4085/1062-6050-50.1.01

Sullivan, K. M., Silvey, D. B. J., Button, D. C., & Behm, D. G. (2013). Roller-massager application to the hamstrings increases sit-and-reach range of motion within five to ten seconds without performance impairments. International Journal of Sports Physical Therapy, 8(3), 228–236.

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