Efeitos de Diferentes Protocolos de Liberação Miofascial com Rolo de Espuma: Qual é a Melhor Estratégia?
A liberação miofascial com rolo de espuma (foam rolling) tem ganhado popularidade como estratégia de preparação e recuperação em praticantes de musculação e atletas. Mas será que todas as técnicas de foam rolling produzem os mesmos efeitos? Nosso estudo científico comparou quatro protocolos diferentes de rolo de espuma e avaliou seus impactos na amplitude de movimento do tornozelo, força, ativação muscular e desempenho em salto. Confira os resultados e descubra qual abordagem pode ser mais eficaz para o seu treino ou prescrição.
Contexto: Por que estudar a liberação miofascial?
O foam rolling é amplamente utilizado com o objetivo de aumentar a flexibilidade e a amplitude de movimento (ADM) sem prejudicar o desempenho de força e potência. Acredita-se que o estímulo mecânico aplicado ao músculo e fáscia promova alterações viscoelásticas e neuromusculares que melhoram a mobilidade articular.
Contudo, há pouca evidência comparando diferentes formas de aplicação da técnica, como:
-
Rolo com superfície lisa ou com "grid" (texturizado)
-
Execução unilateral ou bilateral
Nosso estudo foi um dos primeiros a investigar como essas variações influenciam variáveis como força isométrica máxima, ativação do tríceps sural, e desempenho em salto unipodal.
Métodos: Como foi conduzido o estudo?
Foram avaliados 20 indivíduos treinados (10 homens e 10 mulheres). Cada participante realizou quatro protocolos de liberação miofascial no tríceps sural:
(A) Rolo com grid e rolo liso
(B) Rolo liso unilateral (US)
(C) Rolo com grid unilateral (UG)
(D) Rolo liso bilateral (BS)
A aplicação consistiu em 2 séries de 60 segundos, com 60 segundos de descanso entre elas. Após cada protocolo, medimos:
-
Amplitude de movimento do tornozelo (via teste da passada com carga)
-
Força isométrica máxima (MVIC)
-
Ativação muscular (EMG)
-
Altura e tempo de contato no salto unipodal (SLDJ)
-
Percepção de dor (RPP)
Resultados: O que os dados revelaram?
Os quatro protocolos aumentaram a amplitude de movimento do tornozelo de forma semelhante. Isso indica que tanto o rolo liso quanto o com grid são eficazes para esse objetivo.
Entretanto, observamos que:
-
O UG (rolo com grid unilateral) gerou maior percepção de dor, sugerindo maior intensidade do estímulo.
- Nenhum protocolo comprometeu a força máxima, a ativação muscular ou a altura do salto.
-
O UG aumentou discretamente o tempo de contato no salto, o que pode indicar uma leve interferência na capacidade reativa naquele protocolo específico.
Tabela 1. Média ± Desvio Padrão das medidas.
US - rolo liso unilateral, BS - rolo liso bilateral, UG - rolo com grid unilateral, BG - rolo com grid bilateral.
Variáveis | Pré-Teste | Pós-Teste | MD (IC 95%) | p (Tempo) | p (Tempo*Grupo) |
---|---|---|---|---|---|
Amplitude de movimento (°) | |||||
BS | 50 ± 6 | 51 ± 6* | 1,1 (0,411–1,932) | <0,001 | 0,699 |
US | 50 ± 7 | 51 ± 8* | 1,1 (0,820–1,577) | 0,004 | |
BG | 50 ± 7 | 51 ± 7* | 0,9 (0,074–1,683) | 0,034 | |
UG | 50 ± 6 | 51 ± 7* | 0,8 (0,096–1,547) | 0,029 | |
Força máxima (kgf) | 0,737 | ||||
BS | 36,2 ± 13,5 | 35,8 ± 13,3 | 0,35 (–1,896–1,194) | 0,640 | |
US | 35,2 ± 12,5 | 33,5 ± 12,3 | 1,72 (–0,192–3,634) | 0,075 | |
BG | 38,1 ± 14,6 | 37,3 ± 15,4 | 0,73 (–1,023–2,487) | 0,393 | |
UG | 36,5 ± 12,6 | 35,7 ± 12,5 | 0,78 (–1,323–2,890) | 0,446 | |
IEMG Gastrocnêmio lateral (V.s) | 0,483 | ||||
BS | 0,75 ± 0,26 | 0,76 ± 0,27 | 0,009 (–0,041–0,022) | 0,546 | |
US | 0,67 ± 0,21 | 0,65 ± 0,22 | 0,016 (–0,023–0,055) | 0,397 | |
BG | 0,71 ± 0,23 | 0,71 ± 0,25 | 0,002 (–0,033–0,029) | 0,906 | |
UG | 0,72 ± 0,27 | 0,74 ± 0,29 | 0,020 (–0,055–0,015) | 0,252 | |
IEMG Sóleo (V.s) | 0,615 | ||||
BS | 0,62 ± 0,19 | 0,65 ± 0,31 | 0,030 (–0,114–0,055) | 0,470 | |
US | 0,65 ± 0,24 | 0,69 ± 0,36 | 0,044 (–0,117–0,089) | 0,498 | |
BG | 0,66 ± 0,26 | 0,64 ± 0,27 | 0,016 (–0,019–0,051) | 0,345 | |
UG | 0,59 ± 0,20 | 0,61 ± 0,20 | 0,019 (0,037–0,002) | 0,340 | |
Altura do salto unipodal (cm) | 0,457 | ||||
BS | 13,0 ± 5,7 | 12,5 ± 4,9 | 0,49 (–0,100–1,083) | 0,098 | |
US | 11,8 ± 4,4 | 11,8 ± 4,3 | 0,13 (–0,562–0,589) | 0,962 | |
BG | 12,2 ± 5,4 | 11,8 ± 5,3 | 0,39 (–0,085–0,872) | 0,102 | |
UG | 12,2 ± 4,2 | 11,9 ± 4,0 | 0,24 (–0,668–0,185) | 0,250 | |
Tempo de contato do salto unipodal (ms) | 0,313 | ||||
BS | 383 ± 82 | 399 ± 77 | 15 (–2,549–33,082) | 0,089 | |
US | 375 ± 73 | 385 ± 66 | 9 (–5,520–23,753) | 0,208 | |
BG | 383 ± 97 | 392 ± 89 | 8 (–4,743–21,337) | 0,198 | |
UG | 369 ± 78 | 394 ± 88* | 24 (4,713–44,921) | 0,018 |
* Diferença significativa entre o pré e o pós-teste (p<0,05).
Conclusões práticas: Qual a melhor técnica?
Com base nos resultados, recomendamos:
-
Utilizar técnicas bilaterais para otimizar o tempo de aplicação;
-
Optar por uma intensidade moderada, que provoque leve desconforto, mas sem comprometer o desempenho;
-
Tanto rolos lisos quanto com grid são eficazes para melhorar a mobilidade articular de forma aguda.
Portanto, a escolha do protocolo pode ser guiada pela tolerância à dor do indivíduo, disponibilidade de tempo e preferência pessoal.
Implicações para profissionais de Educação Física
Essas descobertas são relevantes para prescrições pré-treino, especialmente em sessões que exigem boa mobilidade sem perda de desempenho neuromuscular. Também podem ser úteis para orientar estratégias de recuperação e prevenção de lesões em populações treinadas.
Referência
Soares, Enrico, Vinícius Martins Almeida, Christine Megumi Wakuda de Abreu Vasconcelos, João Henrique Barbosa de Jesus, and Charles Ricardo Lopes. 2022. “Comparison of Different Foam Rolling Protocols on Ankle Range of Motion, Strength, Muscle Activation and Jump Performance”. International Journal of Strength and Conditioning 2 (1). https://doi.org/10.47206/ijsc.v2i1.97.
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